Carlos Garcia Tolsa e os pioneiros do violão brasileiro

Carlos Garcia Tolsa



Dentro da história do violão, em meio a tantos personagens que escreveram e contribuíram para tal, há um nome o qual foi deixado de lado com o passar do tempo, sendo sua contribuição tão significativa para o instrumento, especialmente aqui no Brasil. Trata-se do espanhol Carlos Garcia Tolsa.
Tolsa é autor de um vasto repertório para violão, foi diretor da lendária Estudiantina Espanhola Figaro, professor de alunos destacados por suas posições sociais e ainda um dos primeiros estrangeiros a influenciar os pioneiros do violão brasileiro! Com esse histórico, trago a seguir um pouco de sua biografia, reportagens da época e o elo entre Tolsa e o Brasil.

Carlos Garcia Tolsa, um ilustre desconhecido

Carlos Garcia Tolsa foi um compositor, violonista e arranjador espanhol, nascido na Espanha, em Hellin, província de Albacete, em 25 de novembro de 1858. Aos 13 anos de idade, Tolsa foi aprender violão com seu tio, conhecido como o Cego de Hellin. Em 1872 é enviado a Madrid, onde passa a ser discípulo do violonista e compositor Julian Arcas, sendo considerado como seu aluno preferido. Aos 22 anos tornou-se diretor da Estudiantina Espanhola Fígaro, com a qual excursionou por diversas cidades ao redor do mundo. Em 1885, chegou ao Brasil, onde sua passagem teve grande importância para a produção musical violonística realizada no país na época. Tolsa travou contato com os pioneiros do violão brasileiro, onde os mesmos absorveram a técnica e o repertório do músico espanhol, o qual foi inserido e difundido entre eles e apresentados em concertos aqui realizados posteriormente. Os principais divulgadores da obra de Tolsa foram: Quincas Laranjeiras, Ernani de Figueiredo, Alfredo Imenes, o qual integrou a Estudiantina e João Pernambuco.
Um dos primeiros registros sobre a música de Tolsa sendo difundida no Brasil foi de um concerto organizado por Catullo da Paixão Cearense, no Instituto Nacional da Música, em 05 de julho de 1908, onde participaram os professores Alfredo Imenes, Santos Coelho, Quincas Laranjeiras e Zé Cavaquinho, onde entre as três musicas que interpretaram ao violão, estava a composição “Una Lágrima”, de Carlos Garcia Tolsa. As outras eram “Bambino”, de Ernesto Nazareth e a mazurca Edith.
Outro concerto que se tem registro das obras de Tolsa foi realizado em 1927 no Cassino Copacabana por Quincas Laranjeiras e Melchior Cortez (Correio da Manhã, 19 de março de 1927. Correio Musical: Um concerto de violão em Copacabana), onde o programa foi divido em três partes, sendo a ultima, com obras de Tolsa.

1ª parte:
1-El no sé- valsa característica-dueto
2-Ada- Sartori-mazurka romântica-dueto
3-Una Lagrima- Sagreras-trio com o concurso do regente Domingos de Castro
4-Pagina d’Album- Barrios-pelo prof Joaquim Francisco dos Santos (Quincas Laranjeiras)
5-Espalhafatoso- E. Nazareth-tango-dueto.

2ª Parte: Apresentação da Tuna uso Brasileira sob a direção do exímio regente sr Domingos de Castro.

3ª Parte:
1-Enriquieta- Carlos Garcia Tolsa- Habanera, estilo regional-dueto
2-Carnaval de Veneza- F. Castelli- tema e variações-dueto.
3-Al fin, solos- Carlos Garcia Tolsa-Sonata-trio com o concurso do sr Domingos de Castro.
4-Meditação- Carlos Garcia Tolsa-noturno, pelo prof. Melchior Cortez.
5-Bambino- Ernesto Nazareth-tango. Dueto.”

Outro nome que teve contato com a obra de Tolsa foi Heitor Villa-Lobos. Foi num concerto beneficente organizado pelo professor Monteiro para angariar fundos para a construção da Capela de Santo Antônio em Vila Isabel, no Jardim Zoológico, em 23 de maio de 1909. Villa executou duas peças para violão solo: Valsa Nº 2, de autoria dele, e Noturno, de Carlos Garcia Tolsa (O Paiz-22/05/1909-vida social-pg 3). Não sabemos com quem Villa-Lobos aprendeu tal musica.
Sobre este “Noturno” de Carlos Garcia Tolsa, executado por Villa-Lobos, o jornal “Diário de Notícias” fez os seguintes registros quando a Estudiantina estava excursionando no Rio de Janeiro:

“[...] E a propósito: consta-nos que o diretor da Estudiantina tem um magnífico Nocturno que, onde é tocado, levanta tempestades de entusiasmo. Para quando o guarda então? [...]” (Diário de Notícias, 24 de junho de 1885, página 1).

“[...] E o famoso Nocturno que já lhe reclamamos? Irá daqui sem nos dar esse Nocturno que só conhecemos de “ouvir dizer”? Venha o Nocturno, Caballeros! [...]” (Dário de Noticias, 27 de junho de 1885, página 1).

Este “Noturno” é intitulado “Meditación”, uma das peças de maior representatividade de Tolsa.
Entre os alunos de Tolsa, merece destaque Gustavo Sosa Escalada, o qual foi o único professor do grande compositor e violonista paraguaio Augustin Barrios, autor de inúmeras obras de grande representatividade e uma referencia no violão mundial. Barrios foi um dos grandes divulgadores da música de Tolsa, tocando-as em concertos, inclusive tendo incluído em seu repertório na passagem pelo Brasil e ainda gravado três obras em 1914.
Após a dissolução da Estudiantina Espanhola Fígaro, em 1887, Tolsa não se apresentou mais em concertos oficiais e permaneceu primeiramente em Montevidéu e em seguida partiu para Buenos Aires em 1890. De Buenos Aires, seguiu para La Plata, onde foi convidado para atuar como escrivão público, trabalhando como secretario de um tribunal na cidade, função que exerceu até o fim de sua vida, em 23 de dezembro de 1905, aos 47 anos de idade.

A Estudiantina Espanhola Fígaro

No final do século XIX, um grupo musical surpreendeu o publico de diversas cidades pelo mundo, apresentando um repertório e técnica apurados em seus concertos e um espírito vanguardista, o qual deixaria um legado a próximas gerações de conjuntos musicais do gênero. Trata-se da Estudiantina Espanhola Figaro, formada em Madrid em 1878 por jovens espanhóis especializados em tocar instrumentos de corda, como violino, violoncelo, além de bandurras e violões, caracterizando-os assim como uma orquestra de cordas. Os músicos vestiam-se como estudantes de Salamanca e apresentavam um repertório variado, com obras de Rossini, Schubert e Verdi, além de peças compostas por membros do conjunto.
A Estudiantina desempenhou um importante papel, não só em questões puramente técnicas de interpretação, repertório e musicalidade, mas também pelo pioneirismo na parte organizacional de turnês e produção musical. Foram aproximadamente 1800 concertos e mais de 100 o numero de composições no repertório, sem contar o grandioso numero de espectadores. Tal sucesso influenciou a criação de novas Estudiantinas pelo mundo, onde podemos citar como exemplo na Venezuela, a Estudiantina Venezolana e Estudiantina Zuliana, no Chile: Estudiantina Porteña e no Brasil: a de Santos Couceiro.
Dirigidos inicialmente pelo compositor Dionisio Granados, eles logo cedo se puseram a realizar uma turnê, iniciando pelo velho continente, em Lisboa. O sucesso alcançado na empreitada os fez continuar e partiram para a França, depois Alemanha, Austria, Itália, Romênia, Rússia, Bélgica e Inglaterra, sempre se apresentando por várias cidades nos países que passavam. Em princípios de 1880 rumaram para Cuba, recebidos com enorme prestigio pela imprensa e de lá foram para Estados Unidos e Canadá. Voltando a Espanha, aclamados devido ao grande sucesso da turnê, os músicos decidiram percorrer o país de Norte a Sul, de leste a oeste ao longo de dois anos.
Em 1883 deixaram novamente a terra natal e partiram para o México e depois ainda aos Estados Unidos, Guatemala, São Salvador, Costa Rica, Colômbia, Venezuela, Peru, Chile, Argentina, Uruguai e da capital desta republica ao Rio de Janeiro, depois São Paulo e Rio Grande do Sul. Nessa passagem por terras brasileiras, um dos membros da Estudiantina se destacou, o então diretor deste segundo giro pelas Américas, Carlos Garcia Tolsa.
Além da técnica e musicalidade observadas através dos concertos do grupo, eles eram de um grande espírito altruísta. Em sua passagem pelo Chile, o governo local em um primeiro instante negou o Teatro Municipal para o concerto da Estudiantina, porém, ao se verem pressionados pelo publico e tomando consciência do erro, as autoridades voltaram atrás. A Estudiantina se recusou então a usar o Teatro, como uma represália e fez um concerto ao ar livre. A arrecadação desse concerto foi toda destinada ao corpo de bombeiros de Santiago.

Estudiantina Espanhola Fígaro e sua passagem Pelo Brasil

Em 1885, em seu segundo giro pelas Américas, a Estudiantina chega ao Brasil, já esperada com entusiasmo devido às boas referencias. A sua primeira parada foi o Rio de Janeiro. Em seu primeiro concerto, a “Gazeta de Noticias” cobriu e podemos ler um pequeno trecho da resenha que diz muito sobre o evento:

“[...]O programa do 1º concerto compôs-se de peças de diversos gêneros e de difícil execução. Em todas elas a Estudantina revelou uma execução primorosa e nítida, tirando os maiores efeitos de instrumentos tão rebeldes à verdadeira expressão musical [...]” (Gazeta de Noticias – 10 e junho de 1885)

Depois de vários concertos por terras cariocas, seguiram para São Paulo. O Correio Paulistano registrou a seguinte matéria:

“[...] O sucesso alcançado por esse grupo de simpáticos artistas não podia ser mais brilhante. Interpretando peças de diversos gêneros e dificílimas para a bandurra e violão, apreciamos sobretudo a justeza uniforme da execução. [...]” (Correio Paulistano, 24 de julho de 1885).

De São Paulo partiram para Santos e de lá para o Rio Grande do Sul onde também já eram esperados com grande expectativa por parte da imprensa. O jornal gaúcho, “A Federação” fez tal registro assim que eles chegaram em Porto-Alegre:

“[...] Chegou hoje à Capital este celebre grupo de concertistas espanhóis, tão aplaudidos e admirados na Europa, no Rio de Janeiro, e ultimamente em Pelotas e no Rio Grande. Estréiam amanhã os notáveis professores. O publico porto-alegrense lhes fará, sem duvida, uma recepção condigna. [...].” (A Federação, 31 de agosto de 1885).

Através de seus concertos e de atos de apreço ao publico, a Estudiantina conquistou o povo gaúcho. Em um espetáculo no dia 7 de setembro, eles fizeram o seguinte ato, registrado pelo jornal a “A Federação”:

“[...] No espetáculo de 07 de setembro, a Estudiantina Figaro tocou o Hino da Independencia, entre aplausos gerais e, como prova de sua gentileza, da amabilidade peculiar a raça espanhola, os ilustres concertistas substituíram por fitas verdes e amarelas, o distintivo que usavam com as cores da bandeira da sua nacionalidade. [...]”. (“A Federação”, 9 de setembro de 1885).

Após vários concertos, visitando as capitais e cidades interioranas do Brasil, a Estudiantina parte deixando um legado, tanto na produção musical, quanto na influencia de novos conjuntos musicais. Além disso, ela leva consigo um brasileiro, o violonista Alfredo Imenes, que passa a integrar a Estudiantina.

O CD Meditación, com obras de Carlos Garcia Tolsa




Após um longo tempo esquecido, Tolsa volta a ser interpretado por um brasileiro, o violonista Lucas Félix. O CD nasceu de uma parceria entre o pesquisador Jorge Mello e Lucas, sendo o primeiro registro feito por um brasileiro das obras de Tolsa.

Para adquirir o CD Meditación, informações por e-mail: lucasfelixdacosta@gmail.com

Agradecimentos

Ao grande pesquisador Jorge Mello, o qual fez todo o levantamento sobre dados e relatos da passagem da Estudiantina pelo Brasil e sobre Carlos Garcia Tolsa, sendo uma contribuição histórica para a música.
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Referências

https://www.academia.edu/5028959/CR%C3%93NICA_Y_RELATO_DE_LA_PRESENCIA_DE_LA_ESTUDIANTINA_ESPA%C3%91OLA_FIGARO_EN_VENEZUELA
https://www.academia.edu/14753558/Apuntes_sobre_las_giras_europeas_de_la_Estudiantina_F%C3%ADgaro
Diário de Notícias, 24 de junho de 1885, página 1;
Diário de Notícias, 24 de junho de 1885, página 1;
Dário de Noticias, 27 de junho de 1885, página 1;
O Paiz-22/05/1909-vida social-pg 3;
Gazeta de Noticias – 10 e junho de 1885;
Correio Paulistano, 24 de julho de 1885;
A Federação, 31 de agosto de 1885;
A Federação, 9 de setembro de 1885;



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